domingo, 7 de agosto de 2011

Dia do padre

Dom Benedicto de Ulhoa Vieira

Arcebispo Emérito de Uberaba - MG

Em todas as profissões e postos de comando, existem no correr da história figuras notáveis ou pelo talento ou pela ação ou, até mesmo pelo escondimento. Exemplos notáveis não faltam na Igreja de quem se notabilizaram ou felizmente pela inteligência, pela ação evangelizadora ou, até mesmo pela simplicidade e humildade de suas vidas.
Ao celebrar a festa litúrgica de São João Maria Vianney, pároco exemplar na história, não muito distante no tempo, da Igreja, somos – os padres – convidados a contemplar a vida operosa, dedicada e sublimada deste nobre e conhecido clérigo da Igreja da França.
É ele constituído pelo Papa, como modelo luminoso de quem, fiel a sua sublime vocação tornou-se em todos os assuntos a figura modelar de um verdadeiro pároco, que na paróquia assume como que o posto de pai exemplar de todas as famílias.
Não é difícil na vida atual da Igreja encontrar sacerdotes silenciosos, humildes e dedicados que no seu zelo pastoral são luzes bem claras da ação do sacerdote. Homens de oração, portanto de união íntima com Deus, de dedicação sacrificada ao bem dos irmãos, do desprendimento das coisas materiais, sabem viver integralmente em união mística como o fundador da Igreja: Jesus Cristo. Não fica difícil lembrar a figura do Cura D’Ars como modelo e protótipo do verdadeiro ministro de Deus.
Como prova da aceitação do céu à vida exemplar deste humilde sacerdote francês, seu corpo não foi consumido pela terra e se encontra perfeitamente íntegro em seu oratório silencioso e glorioso no altar lateral da igreja paroquial de Ars, na França. Tem-se a impressão de o Santo ter deixado a terra minutos antes.
Tive a felicidade de celebrar a missa neste altar, com o cálice que era de seu uso diário no tempo de sua vida terrena. Além disso, sente-se um clima de sobrenatural beleza diante daquele humilde altar em que o corpo de São João Maria Vianney se vê intacto como se estivera vivo.
A festa do dia 4 de agosto em homenagem a São João Maria Vianney traz à mente de todos os sacerdotes do mundo o cuidadoso zelo pelas suas obrigações pastorais, pela sua dedicação ao povo de Deus e pela sua união mística com o Senhor do céu.
É este o santo que a Igreja apresenta como modelo para o padre diocesano: viver na oração, dedicar-se exclusivamente aos que dele precisam e respirar um clima sobrenatural do contínuo contato com Deus pela vida contemplativa.
São João Maria Vianney atrai, pela sua vida, os que na aspiração sobrenatural do sacerdócio guardam no coração o desejo sincero de viver na simplicidade os fulgores da vivencia amorosa com Deus. A festa de São João Maria Vianney é um humilde e eloquente convite a todos os párocos para gozarem no dia a dia do seu sacerdócio – que é eterno – as belezas místicas que emanam do exemplo luminoso da vida deste protetor que a Igreja nos apresenta como modelo exemplar da vida pastoral de nossas paróquias.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

MENSAGEM AOS PARTICIPANTES DA JMJ

Presidente da Comissão Episcopal para a Juventude deixa mensagem aos participantes da Jornada Mundial da Juventude de Madri, que acontece neste mês de agosto.
Caros “13.000 irmãos e irmãs brasileiros”, participantes da Jornada Mundial da Juventude 2011, faltam poucos dias para este bonito, significativo, marcante evento da nossa Igreja, cuja catolicidade chama a atenção de todos.
A centralidade em Jesus Cristo, a eclesialidade do encontro, o espírito familiar juvenil chegarão a todos os cantos do mundo com a voz profética de uma Igreja que, acreditando nos jovens, desafia esta sociedade que insiste em defender o consumismo, o hedonismo, o ateísmo, o egocentrismo, a violência, a exclusão, o relativismo. Neste sentido, ‘somos do contra’! Deus tem a primeira e a última palavra de vida plena para os jovens que buscam concretizar o mais belo desejo do coração humano: ser feliz!
“Sei muito bem do projeto que tenho em relação a vós – oráculo do Senhor! É um projeto de felicidade não de sofrimento: dar-vos um futuro, uma esperança! Quando me invocardes, irei em frente, quando orardes a mim, eu vos ouvirei. Quando me procurardes, vós me encontrareis, quando me seguirdes de todo coração, eu me deixarei encontrar por vós – oráculo do Senhor. Mudarei vosso destino, vou reunir-vos de todas as terras e lugares por onde vos dispersei...” (Jr 29, 11-14).
Teremos momentos muito especiais, todos eles desejados por Deus e organizados pela Igreja que, presente em Madri, nos aguarda de braços abertos.
Meu desejo atual e minhas orações diárias têm sido para que todos nós aproveitemos intensamente de tudo que nos será oferecido.
Queridos irmãos e irmãs, peço a Deus pelos seus preparativos materiais, psicológicos e espirituais. Tenham tranquilas viagens; relacionamentos maduros com todos os que encontrarem pelo caminho... e pelos ares! Vibrem por cada palavra ouvida, soprada pelo Espírito Santo! Não se cansem de louvar ao Pai pelas maravilhas que irão contemplar e experimentar! Renovem sua vocação de discípulos-missionários de Jesus Cristo! Aumentem o amor e o compromisso para com esta nossa Igreja que não se cansa de apostar nos jovens!
Nossas Dioceses, Paróquias, Grupos, Pastorais, Movimentos, Novas Comunidades, Congregações Religiosas, familiares e amigos estarão torcendo, rezando pelo sucesso destes preciosos dias. E eles estarão nos aguardando! Sim! Estarão nos aguardando: renovados em nossa vontade de viver à luz e a serviço do Evangelho que dá sentido a nossa vida e nos motiva para a generosa oferta desta nossa vida à vida de nosso povo, principalmente daqueles irmãos que estão excluídos, desanimados, violentados, distraídos, iludidos. Nossa alegria e vibração, com a graça de Deus e a presença dos irmãos, deverão se transformar em criatividade a favor da vida de todos.
Nossa existência não será mais a mesma depois desta Jornada! Acreditem! Nossa vida cristã não pode ser mais a mesma depois deste presente de Deus!
Estejamos de coração e mente abertos! Perseveremos na vivência dos valores, na busca da unidade, na fidelidade cristã, no amor ao próximo, no compromisso a esta Igreja que é nossa Mãe.
Com Maria e com Ela cantemos, juntos, as maravilhas do Senhor que serão abundantes nestes dias de graça e encanto!
Com estima e bençãos especiais,
Dom Eduardo Pinheiro da Silva
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude da CNBB e
Bispo Auxiliar na Arquidiocese de Campo Grande (MS)

Onde está Deus? 07/08/2011

Muitas vezes nos perguntamos: "Onde está Deus?"
"Onde o podemos encontrar?"

As Leituras de hoje têm duas cenas muito bonitas,
que mostram como Deus SE REVELA.

Na 1a Leitura, Deus se revela a Elias, na BRISA suave. (1Rs 19,9a.11-13)

Cansado e perseguido de morte por Jesabel, Elias foge para o deserto,
a caminho do Monte Horeb, onde Moisés se encontrara com Deus...
- Lá, Elias o esperava no vento, no terremoto, no fogo, mas ele não estava lá.
Deus vai ao seu encontro de uma forma completamente diferente:
"no sopro suave de uma BRISA..." e ali lhe fala...

* Deus geralmente se manifesta na humildade, na simplicidade, na interioridade.
Por isso, é preciso calar o ruído excessivo, moderar a atividade desenfreada, encontrar tempo para consultar o coração, para interrogar a Palavra de Deus,
para perceber a sua presença e as suas indicações, nos sinais,
quase sempre discretos, que ele deixa na história e em nossa vida.

Na 2ª Leitura, Paulo fala que Deus se revelou, oferecendo a todos  
uma proposta de Salvação, mas o seu povo infelizmente a rejeitou. (Rm 9,1-5)

No Evangelho, Deus se revela na TEMPESTADE. (Mt 14,22-33)

- Jesus envia os discípulos em missão na outra margem do lago
  e, cansado, retira-se da multidão... vai ao monte para rezar...
- Enquanto isso, os apóstolos navegam "de noite" preocupados,
  na barca agitada pelos ventos contrários.
- Jesus interrompe o descanso... vai ao encontro, "caminhando sobre o MAR".
- Eles o confundem: "É um fantasma..."
- E Jesus se identifica: "Coragem, SOU EU, não tenham MEDO".
- Pedro o desafia: "Se és Tu, manda-me caminhar sobre as águas".
- Jesus aceita: "Vem!"
- Pedro vai ao encontro de Jesus; mas, assustado pelo vento,
  começa a duvidar e afundar. Então grita por socorro: "Salva-me, Senhor!".
- Jesus antes estende a mão e depois o questiona:
  "Por que duvidaste, homem de pouca fé?"
- Jesus entra na Barca e a tempestade se acalma.
- Então todos se prostram em adoração diante de Jesus, dizendo:
  "Verdadeiramente Tu és o Filho de Deus".
* Deus se manifesta em meio às dificuldades, aos ventos da tempestade.

Enquanto Jesus está em diálogo com o Pai, os discípulos estão sozinhos,
em viagem pelo lago. Essa viagem, no entanto, não é fácil e serena… É de noite; o barco é açoitado pelas ondas e navega dificilmente, com vento contrário.
Os discípulos estão inquietos e preocupados, pois Jesus não está com eles…
Esse BARCO é a COMUNIDADE CRISTÃ:   
A "noite" representa as trevas, a escuridão, a confusão, a insegurança
em que tantas vezes "navegam" através da história os discípulos de Jesus,
sem saberem exatamente que caminhos percorrer nem para onde ir…
As "ondas" representam a hostilidade do mundo,
que bate continuamente contra o barco em que viajam os discípulos…
Os "ventos contrários" representam as resistências ao projeto de Jesus.
Os discípulos de Jesus se sentem perdidos, sozinhos, abandonados, desanimados, desiludidos, incapazes de enfrentar as tempestades que as forças da morte e da opressão (o "mar") lançam contra eles…
É precisamente aí, que Jesus manifesta a sua presença.
Ele vai ao encontro dos discípulos "caminhando sobre o mar".

O episódio reflete a fragilidade da fé dos discípulos, quando tiveram
de enfrentar as forças adversas, sem a presença de Jesus na barca.
Os discípulos seguem a Jesus de forma decidida, mas se deixam abalar
quando chegam as perseguições, os sofrimentos, as dificuldades…
Então, começam a afundar e a ser submergidos pelo "mar" da morte,
da frustração, do desânimo, da desilusão…
No entanto, Jesus lá está para lhes estender a mão e para os sustentar.
Finalmente, a desconfiança dos discípulos transforma-se em fé firme:
"Tu és verdadeiramente o Filho de Deus".

Esse texto é uma CATEQUESE sobre a caminhada da Comunidade de Jesus, enviada à "outra margem", para convidar todos para o banquete do Reino
e a oferecer-lhes o alimento com que Deus mata a fome
de vida e de felicidade dos seus filhos.
- A caminhada não é um caminho fácil.
A comunidade (o "barco") dos discípulos deve abrir caminho
através de um mar de dificuldades, pela hostilidade dos adversários do Reino
e pela recusa do mundo em acolher os projetos de Jesus.
- Os discípulos devem estar conscientes da presença de Jesus.
O "fantasma" do MEDO desvanece e as crises de fé são superadas,
quando aceitamos a presença de Deus em nossa vida pessoal e comunitária.
Ele continua a garantir: "Coragem! Sou Eu. Não tenhais medo".

+ Dia do Padre: O padre também não está isento de "tempestades",
que se formam dentro e fora da Comunidade.
Nesse dia a ele consagrado, rezemos para que, nesses momentos
em que possa ter a sensação de afundar no mar da frustração e do desânimo,
possa perceber essa presença de Cristo, que vem ao seu encontro
com palavras de esperança. "Coragem! Sou eu. Não tenhas medo!"
Quando Cristo entra na BARCA, o vento e as ondas param...
e volta a tranqüilidade... a paz.
 
                                              Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa - 07.08.2011

19 Domingo do Tempo comum. Coragem! Sou eu. Não tenhais medo.

“Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta” ( 1 Rs 19,13a). “Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: Verdadeiramente, tu és o filho de Deus” (Mt 14,33).
Duas cenas de calma e serenidade quase paradisíacas, que acabam de concluir a atribulada travessia do deserto por parte do profeta Elias, e a longa noite dos discípulos, cheia de angústia ao lutar contra as ondas do lago agitadas pela tempestade. Apesar desse quadro, os protagonistas das duas histórias estão gozando tranqüilidade e paz profunda: dom surpreendente que acompanha o inesperado e íntimo encontro com o Senhor, que até pouco antes parecia estar ausente, surdo e mudo perante os seus gritos de medo e de ajuda.
Por um lado as cenas marcam o cume da condescendência de Deus para com o seu profeta Elias, e a intensa manifestação da senhoria de Jesus sobre os agitados acontecimentos da história, para com os discípulos. Por outra parte, a mudança radical do cenário marca o ponto de chegada do longo processo de conversão do profeta ao Senhor, assim como do crescimento da frágil fé de Pedro e dos demais discípulos. O medo paralisante de pouco antes se traduz na solene profissão de fé que proclama Jesus “Filho de Deus”. Quantas vezes Jesus, ao encerrar o encontro com um homem ou com uma mulher que vai em busca dele, confiante em sua ajuda, declara: “Vai, a tua fé te salvou!” (cf. Mc 5,34; Mt 15, 28). O Senhor abre para nós o mesmo trilho!
A profissão de fé dos discípulos nos coloca em cheio na plena luz da páscoa; páscoa que celebramos hoje, assim como em todo domingo, para que ilumine e oriente a partir de uma perspectiva interior nossos dias. Eles se sucedem uns aos outros, aparentemente iguais na repetição da rotina, e não raramente provados por feridas e fatigas sem saída. A luz do Ressuscitado os resgata do “não sentido”, e os faz lugar do possível encontro com o Senhor.
A Igreja nos acompanha com o dom da Palavra de Deus e com o pão de vida da Eucaristia, para que nos tornemos companheiros da longa trajetória interior de Elias e dos discípulos, partilhando com eles a mesma força transformadora da fé e a intimidade para com o Senhor, que caracterizam toda autêntica relação com ele.
O breve trecho do 1 livro dos Reis, proclamado na primeira leitura, nos apresenta apenas a conclusão da complicada história humana e interior de Elias, o primeiro dos profetas históricos de Israel. Ele é apresentado pela mesma escritura do AT e do NT, como modelo de tantos homens de Deus, chamados por ele a tornar-se seus amigos e corajosas testemunhas, na defesa da justiça em prol dos pobres, na recuperação das exigências da aliança estabelecida por Deus com Israel, na espera da vinda do Messias que vai restabelecer as condições para cumprir a originária aliança.
A compreensão profunda da extraordinária experiência de Deus, vivenciada pelo profeta na gruta do monte Horéb, pressupõe uma leitura atenta e partícipe da fascinante aventura humana e espiritual de Elias, narrada nos capítulos 18-19 do 1 livro dos reis. À sua luz se compreende a colocação desta história em conjunção com a narração da noite de Jesus mergulhado em profunda oração na montanha, e sua ida em socorro dos discípulos em dificuldade dentro do barco no meio da tempestade. Na complexidade das intrigas e das paixões humanas, se desvela a secreta pedagogia com que Deus dirige a história, chama e forma seus profetas para guardar e alcançar o cumprimento do seu projeto de vida.
Talvez seja útil lembrar alguns pontos salientes deste trajeto interior de Elias, para iluminar um pouco nosso próprio caminho existencial. Poderia nos ajudar também a entender porque a sua figura se tornou tão emblemática na tradição da própria Escritura, na tradição judaica posterior, naquela cristã, sobretudo na sua vertente mística, e até mesmo na tradição muçulmana. Cada uma delas se reconhece num ou no outro aspecto da sua experiência espiritual, como num espelho.
No momento mais alto da revelação da identidade e da missão de Jesus na transfiguração, ele aparece dialogando sobre o cumprimento da sua tarefa de messias sofredor com Moisés e Elias, os dois eixos do projeto salvífico de Deus na aliança, que está para se realizar na sua morte e ressurreição (cf Lc 9, 30-31).
O profeta, com zelo ardente pela pureza da fé de Israel com a violência de todo fundamentalista religioso (1 Rs 18,20-40), foi progressivamente transformado pelo próprio Senhor, através de uma série de despojamentos interiores, sempre mais sofridos e radicais. O Senhor lhe ordena de morar no deserto, onde aprende a se alimentar confiando na providência divina: os corvos trazem o pão e a torrente de água o sacia por um tempo limitado. O Senhor o envia a morar em terra pagã, sustentado por uma pobre viúva em Sarepta (1 Rs 17, 2-24).
O profeta pretende defender Deus com a matança dos profetas de Baal (1 Rs 18, 16-40). Foge para o deserto para salvar-se da vingança da rainha Jezabel, cai no extremo desânimo, o Senhor o socorre alimentando-o através de seu anjo, e o fortalece para cumprir seu caminho até a montanha do Senhor (1 Rs 19, 1-8).
O Senhor o interpela como profeta refugiado na gruta da montanha. Ele se queixa de estar correndo riscos mortais pelo Senhor, e reivindica mais uma vez o feito de ficar sozinho para defendê-lo (1 Rs 19, 10.14). Em resposta o Senhor lhe ordena de “sair da gruta” em que está amparado, para ficar diante dele que está para passar diante dele ( 1 Rs 19, 9-11; 13-14)). 
A gruta em que está refugiado, mais que na rocha da montanha, está escavada na realidade em seu pequeno mundo ideológico, onde falta o ar livre da vida e a visão ampla da realidade. O Senhor faz sair Elias deste túmulo de morte, e o faz nascer à vida nova. O murmúrio suave e brando é a habitação verdadeira do Senhor. A sua voz profunda é o silêncio que chega ao coração. Elias pode somente entrever a face do Senhor através do manto que cobre seu rosto, como a mão protetora de Deus cobriu o rosto de Moisés, na montanha do Sinai, para protegê-lo da luz insustentável da sua glória, concedendo-lhe o privilégio de contemplá-lo somente pelas costas (cf  Ex 33, 18-23).
Elias sai deste encontro radicalmente transformado (1 Rs 19, 9-14). Recebe a nova missão de promover a vida do povo, em Israel e em Damasco, e de transmitir seu carisma de profeta a Eliseu (1 Rs 19, 15-18). Somente quem tem em si mesmo a vida do Senhor pode transmitir vida.
Iniciada como fuga diante do poder prepotente da rainha Jezabel, a aventurosa viagem de Elias se transforma numa verdadeira peregrinação interior rumo ao centro de si mesmo, mais que uma transferência forçada de lugar geográfico para outro, com a finalidade de esconder-se. Marca o retorno às origens espirituais de Israel a descida do profeta nas profundidades do seu coração, onde encontra a verdadeira habitação do Senhor e a linfa vital da sua missão de profeta ao serviço do Deus da aliança e da vida.
Através da pedagogia, severa e doce ao mesmo tempo, dos progressivos despojamentos de si, o Senhor molda o seu profeta, até fazê-lo digno de encontrá-lo na intimidade e na paz, como supremo dom de graça. Está superada toda manifestação de força que se impõe, simbolicamente expressa pelos impetuosos elementos naturais do vento violento e forte que quebra as montanhas, ou do terremoto e do fogo ( cf  1 Rs 19,11-12). Tais sinais tinham acompanhado a manifestação de Deus a Moisés e ao povo junto do Monte Sinai no momento de estipular a aliança (cf Ex 19,16-24). Desaparece também toda pretensão de fazer-se como defensor de Deus e quase seu protetor!
Deus não precisa de defensores, mas de testemunhas da sua graça e da salvação que vem dele. Testemunhas que, antes de mais nada, sabem escutar o testemunho interior do próprio Espírito do Senhor que fala dentro de nós, nos atrai a si próprio, nos fortalece, e nos sugere o que  é importante de verdade a se dizer, diante do tribunal da história ( cf Mt 10, 17-20).
Apreender o caminho espiritual, deixando-nos guiar pelo próprio Senhor e a ser moldados pela sua pedagogia purificadora e libertadora, em tempo de marcado individualismo e protagonismo também na busca espiritual, é uma herança preciosa que nos vem do profeta e do próprio Jesus: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt 14,27).
Enquanto com a fórmula “Sou eu”, Jesus evoca o poder do nome divino (cf Ex 3, 14-15) pelo qual ele domina o mal, como deixam vislumbrar seu caminhar em cima das ondas e a calma da tempestade, ele vai encontro dos discípulos, como um pai que cuida da sua criança assustada, os encoraja, e igualmente encoraja Pedro na fraqueza da sua fé, já que ele segura prontamente em sua mão respondendo a seu grito de ajuda, sobe no barco e a tempestade se acalma.
A tradição cristã reconheceu neste evento, junto com a multiplicação dos pães, a imagem da Igreja na sua travessia ao longo da história, alimentada e sustentada pelo próprio Jesus. Na fé ela sabe e experimenta que Jesus não abandona os navegantes, assim como sabe que é ele mesmo a fortalecer a fé de Pedro e a garantir que o barco alcance seu destino, “para o outro lado do mar”, segundo o projeto de Deus.
Precisamos aprender o estilo da condescendência divina e da sua misericórdia solidária, num tempo em que cada um eleva o tom da voz para deixar-se ouvir, no atual show permanente e confuso das idéias e das propostas, onde se fica acentuando as cores de suas fardas e das suas bandeiras para afirmar seus princípios éticos, políticos, religiosos. Isto significa aprender com o profeta Elias a descer do monte Carmelo, lugar da matança dos profetas, e aprender a peregrinar com ele os duros trilhos do deserto até o monte Horeb, o lugar do encontro no silêncio com o Senhor e com as fontes da verdadeira vida. A mística não fecha a pessoa num mundo vazio, pelo contrário, a constrói com a mesma energia de Deus e a faz capaz de reconhecer e de cuidar do seu rosto divino, presente em toda pessoa e em toda situação.
Estas passagens espirituais e culturais constituem um desafio permanente no caminho pessoal e das comunidades cristãs de todo tempo. É difícil fazer próprio o estilo de Deus e de Jesus.
Depois que ele multiplicou os pães, o povo queria fazê-lo rei, destaca João, como que para garantir a continuidade da bonança material inesperada (Jo 6,15). Jesus, porém, refugiou-se sozinho na montanha, onde, numa noite de intensa oração face a face com o Pai, confirma sua escolha ao serviço do reino. Desta íntima relação com o Pai, ele desce em socorro potente e caridoso dos discípulos. Mas eles mesmos, observa S. Marcos, “ainda não tinham entendido nada a respeito dos pães, mas seu coração estava endurecido” (Mc 6, 52).
A Igreja conhece bem o tesouro da fé que nos anima, embora exposta a tantas fragilidades diante das provações da vida. Por isso nos convida a rezar com confiança o Pai, para que o nosso coração de filhos e filhas seja por ele mesmo fortalecido e alcancemos a tranqüilidade e a intimidade da casa paterna que esperamos: “Deus eterno e todo poderoso, a quem ousamos chamar de Pai, dai-nos cada vez mais um coração de filhos, para alcançarmos um dia a herança que prometestes” (Oração do dia).
A Oração Eucarística VI-B (Deus conduz sua Igreja pelo caminho da salvação) interpreta muito bem esta consciência viva da Igreja e a firme esperança que a anima em seu caminho.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

JORNADA MUNDIAL DE JUVENTUDE

Em Madri, 16 a 21 de Agosto de 2011, acontecerá a Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

Tema: "Enraizados e fundados em Cristo, firmes na fé" (CL 2,7).
"O encontro terá  a participação do Santo Papa Bento XVI. Mais de um milhão de jovens participaram da JMJ.
Aqui se encontra um trecho no qual o Papa explica o tema da Jornada Mundial da Juventude:
"Para ressaltar a importância da fé na vida dos crentes, gostaria de deter-me em três termos que São Paulo utiliza em: "Enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé" (cf. Col 2, 7). Aqui, podemos distinguir três imagens: "enraizado" evoca a árvore e as raízes que a alimentam; "edificado" refere-se à construção; "firme" alude ao crescimento da força física ou moral. Trata-se de imagens muito eloquentes. Antes de comentá-las, é preciso assinalar que no texto original as três expressões, desde o ponto de vista gramatical, estão no passivo: quer dizer, que é Cristo mesmo quem toma a iniciativa de enraizar, edificar e tornar firmes os crentes".

DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA NO BRASIL 2011 - 2015

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, na 49 Assembleia Geral em Aparecida - SP, de 4 a 13 de maio de 2011, lançou as diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2011-2015. É de suma importância que todos os cristãos católicos leem essas diretrizes que com tanto carinho e oração os nossos bispos elaboraram e aprovaram para nós. Sabemos que nem tudo é "mares de rosas". Infelizmente a teoria só fica no papel, porque falta mais conhecimento na parte dos cristãos. Para que que isso aconteça, leiamos esse documento da CNBB que será muito útil para os agentes pastorais, movimentos. Está disponível no site da CNBB.

 Um abraço a todos(as) e uma boa leitura.

JOVENS: EDIFICADOS EM CRISTO.


Card. Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo - SP
A Jornada Mundial da Juventude de Madrid (17-21/08) é uma rica ocasião para o diálogo da Igreja com os jovens. Talvez alguém se pergunte: afinal, o que uma Instituição de 2 mil anos tem a dizer aos jovens, que ainda possa interessá-los?! A resposta é a mesma que fez com que os jovens, ao longo de 2 mil anos, continuassem a dar atenção à Igreja: ela lhes comunica a Boa Nova d eCristo, que é capaz de satisfazer  suas buscas e preencher de sentido suas vidas.
Assim aconteceu há 2 mil anos, quando as pessoas encontraram Jesus Cristo. E aconteceu com os jovens Saulo de Tarso, Agostinho de Hipona, Francisco de Assis, Antonio de Lisboa, José de Anchieta, Inácio de Loyola, Teresinha de Lisieux, Edith Stein e tantos, tantos outros!
Pode parecer velho, mas é sempre novo, pois, é nova e única a vida de cada ser humano, que busca respostas. E quando aponta para Jesus Cristo, a Igreja indica ao homem a resposta mais radical, verdadeira e permanente; não aponta apenas para belas teorias, ideais desencarnados ou princípios abstratos; ela leva ao encontro da pessoa de Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, caminho, verdade e vida; e convida a se deixar atrair e encantar por ele, a experimentar a alegria e a paz de estar com ele, a acolher sua palavra e a seguir seus passos pela vida afora.
Sim, porque Ele é como o pão, que sacia toda fome e faz viver para sempre; como a água vivificante, que mata toda a sede; o pastor, que ama seu rebanho e dá a vida pelas ovelhas; Ele é a porta aberta, pela qual passa quem deseja ir direto ao encontro com Deus. Isso interessa aos jovens? Acho que sim. Interessa a todos!
O tema da Jornada de Madrid – “enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé” (Cl. 2,7) -, lembra a “casa construída sobre a rocha”, da qual Jesus fala no Sermão da Montanha. Não basta ouvir suas palavras, é preciso colocar em prática o que se ouviu. E quem o faz, é como um homem que constrói sua casa sobre a rocha; nada podem contra ela ventos, enxurradas e enchentes, pois tem base sólida e fica firme. Mas quem ouve e não pratica o que Jesus ensina é como um homem que constrói a casa sobre a areia: vêm a chuva, os ventos, as enxurradas; a casa cai e vai toda em ruínas (cf. Mt. 7,24-27).
Vivemos a cultura do descartável, dos modismos passageiros, das novidades que suplantam as convicções a toda hora... Certezas duradouras estão fora de moda! O consumismo voraz tomou conta também da cultura, dos comportamentos e convicções; e tende a invadir também o campo religioso e dos princípios morais. Neste tempo de superficialidades, de relativismos e subjetivismos, cada um é elevado a construir sobre a base de si próprio, de seus gostos e sentimentos passageiros. Dá futuro isso?
Neste contexto, muitos jovens ficam sem referências sólidas para edificarem seu projeto de vida e seu futuro. Com frequência, “mitos” inconsistentes lhes são propostos, de maneira consumista, para serem imitados e seguidos. Quantos jovens, desorientados na vida, encaminham-se para os vícios e a imolação de suas jovens existências no culto das vaidades e prazeres, que os deixam vazios e destruídos! Que o digam Amy Winehouse e tantos jovens, que largaram tudo para viver nas cracolândias, vítimas da dependência química. Que o digam tantas vítimas, eliminadas em plena flor da idade, “arquivos” incômodos, depois de se terem envolvido nas malhas ilusórias e perigosas do tráfico de drogas e do dinheiro fácil...
São Paulo, querendo ajudar a vacilante comunidade de Corinto a se firmar na fé, exorta os fiéis: “... como sábio arquiteto, coloquei o alicerce, sobre o qual outro se põe a construir. Mas cada qual veja como está construindo. De fato, ninguém pode colocar outro fundamento, a não ser aquele que já está colocado – Jesus Cristo. Se alguém edificar sobre esse alicerce com ouro, prata, pedras preciosas ou madeira, feno ou palha, a obra de cada um acabará sendo conhecida.” (cf 1Cor 3,10-15).
Jovens, querem fazer algo de bom em suas vidas? Algo que dê futuro e ofereça firmeza para enfrentar os embates da vida? A Igreja os convida: construam sobre Cristo e seu Evangelho! Muitos outros já fizeram isso antes de vocês e não ficaram frustrados. Cristo é a rocha sólida, que dá sustentação para um grande e belo projeto de vida, como aquele que vocês querem para si!